hoje tenho apenas razões para sorrir
Acometido por uma felicidade pulsante e aparentemente sem motivo (mesmo sabendo que sempre há motivo).
Eu vou.
nunca quis ser nada disso
e nem tudo aquilo que disseram
nunca.
onde estive antes me trouxe até aqui agora,
é nesse lugar então que sobrevivo.
o amanhã eu faço hoje
e seja lá onde for, eu vou, inteiro.
Algumas coisas, eu sei, que nunca são esquecidas
Os dias bons de sol e frio, os risos e delírios
Memórias penduradas em um quadro verde
Sueguras por percevejos dourados.
Uma série de momentos leves e felizes,
como fotografias que não desbotaram com o tempo, ainda.
E ainda há muito a se viver, e muitas outras coisas a se pendurar
Quem sabe até melhor do que os que pendurei agora.
Que seja.
Metas, planos, estratagemas, rumos, paradeiro.
Já não sei sorrir.
Não tenho nada.
Pelas ruas ando com um fantasma de mim mesmo
Uma lembrança parca de algo que já fui.
Não há peso e também não há leveza.
Só a gravidade e a vontade de te ver que não some
Te vejo na semiótica das ruas,
nas sombras, nos cantos.
Via flores em repolhos,
agora já não vejo nada.
Relógio, morre –
Relógio, morre –
Momentos vão…
Nada já ocorre
Ao coração
Senão, senão…
Bem que perdi,
Mal que deixei,
Nada aqui
Montes sem lei
Onde estarei…
Ninguém comigo!
Desejo ou tenho?
Sou o inimigo –
De onde é que venho?
O que é que estranho?
(Fernando Pessoa)
“Para mim ser é admirar-se de estar sendo” (Fernando Pessoa)
“o Mal não foi criado, fez-se, arde como ferro em brasa, e quando quer esfria, é gelo, neve, tem muitas máscaras, por sinal, não gostaria de se desfazer das suas e trazer a paz de volta (…)?” (Hilda Hilst)
“Às vezes você perde algo que não queria perder, mas acaba ganhando algo que nem poderia imaginar conquistar”
tudo que eu viva, possa viver muito.
e tudo que eu sonhe, possa realizar sempre,
e tudo que eu queira, possa ter o tempo todo,
que você também me queira, porque sou seu…
inteiro e todo.
W.H. Auden
“Nunca imagine que você não é senão o que poderia parecer aos outros que o que você foi ou poderia ter sido não era senão o que você tinha sido que lhes teria parecido diferente”
(Lewis Carrol – Alice no país das maravilhas)
Todas as coisas que disseste
ecoam dentro de mim e não me deixam dormir.
Ainda que eu tente não mostrar
Eu sinto sim, eu sinto muito
me conta sobre seu sonho estranho
coloca uma música doce pra tocar
diz que não sabe, de seu amor, qual o tamanho
que quer correr, e é culpa do medo de se apaixonar
me leva para aquela praça antiga
grita que quer passar a noite inteira assim, do lado
confidencia que sempre quis ser mais do que amiga
que espera que nunca nada dê errado
me convida pra fugir depois do primeiro raio de sol
pega na minha mão, diz que quer sentir tudo o tempo todo
pede pra trocar de música, que não é mais hora de ouvir rock n’ roll
explica que de alguma maneira, mesmo se distantes, estaremos sempre juntos, de algum modo
olha com olhos de caleidoscópio as flores de celofane verde e amarelo que fiz
abre uma cerveja, deita no tapete da sala e me faz te amar
sai e volta correndo, gargalhando por ter escapado da chuva por um triz
beija minha boca, diz no meu ouvido que nunca mais quer chorar…
e ri.
queria escrever coisas cruas, desenhar mulheres nuas, cabelos não curtos, nem compridos, queria fazer valer a pena o tempo todo sem ter que esperar os dias alegres chegarem. Não queria mais matar o tempo pensando em coisas que provavelmente me matariam de fome, como saudade ou beijo na boca. Não vou mais pensar na dor das coisas que não voltam mais. O mesmo chão que agora sinto me deixa em pé o tempo todo, sempre mais forte, sempre melhor. A solidão me abriga em toda esquina. Lembranças de extratos bancários do ano passado, amassados pelo tempo, as letras que nos ligavam como sujeito e verbo de uma mesma frase conjugada no pretérito imperfeito desapareceram.
Lágrimas caídas em camas diferentes.
[na vitrola : Você não entende nada/Cotidiano - Chico e Caetano (ao morto)]
Só pra registrar
Plantei uma árvore na sede da Via Brasil TV – Record News, um Ipê Amarelo.
Já tenho um filho, plantei uma árvore (que espero que vingue), falta escrever um livro.
Um dia eu chego lá.
Dia morno, o sol despejava raios preguiçosos por toda a casa, a grama tinha tons verdes mastigados e ela corria, uma versão Lola brasileira, alucinada, longos e noturnos cabelos, jeans, all-star, já não ficava claro qual era a banda da sua camiseta branca. Enxergava só a casa, via lembranças da infância e tinha medo do “quando a gente morre passa um filme”.
Mais alguns passos e a calçada, um grito, pessoas. Ela precisava encontrar aquelas pessoas, sabiam tudo sobre ela, seus sonhos, frustrações, eram carne. Iriam ajudá-la, isso é certo. E o fizeram.
Eram dois buracos. Dois Tiros ? Se eram, eram dois, mas isso não importava, eles sabiam o que fazer. Como que guiados de dentro pra fora, sem toque, saíram. E eram dois parafusos o que havia dentro dela.
Não sei se era medo ou desespero. Mas ela continuou, correu e entrou na casa em frente, havia um salão imenso, ela atravessou, subiu as escadas, gritando calada, abriu a porta do quarto sabendo exatamente o que queria, deitou-se ao lado da janela, o vento balançava as cortinas que ao passarem pelo seu corpo manchavam-se de sangue, já não tinha nada, apenas sangue, olhou pro lado e sorriu. Recostou a cabeça no meu peito, olhou um longo tempo nos meus olhos e dormiu.
eu não quero mais sonhos quero mais do que morder, quero ser mordido!
Permeado de sonhos e cortando o horizonte,
O céu azul, a brisa calma e sol escaldante.
A própria sombra se esconde e sofre calada,
Mais um dia na peleja da beleza de querer.
Sonhos que se consolidam, toda noite, mais distantes
Sufocam a alma da alegria que fenece ante a tristeza.
As cores dos dias não acalentam a dor que há a noite
E a solidão que se espreguiça embaixo da cama sem lençol
O corpo todo em uma vibração diferente
Anos e anos de ostracismo.
Noite e dia, perdido.
Despertando de um sono estranho em uma noite quente,
O nariz sangrando, os olhos coçando e a boca seca.
Sede! Sede de ser e poder ser
Na pele, mais que tatuagem, desejo
Na cama…
Nada.
não entendo tudo quanto é isso de te ter dentro de mim,
a história não precisa acabar antes do começo.
de repente é bom de vez em quando um tropeço,
ando cansado de tudo ser sempre assim.
pode -se sentir, em um dia cinza, chuvoso e frio de outono
as coisas perdendo a direção, tornando-se maiores a cada segundo.
talvez seja assim que se construa um novo mundo,
o querer cresce aquece, sem querer, o estado pálido e morno.
eu sigo à deriva entre o que será e o que é,
não desisto de querer, de sentir, de lutar.
ainda que em alguns momentos não faça ideia de onde tudo isso vai dar,
não deixo de querer, não perco a fé.
como se algo implodisse o estômago,
como se fugissemos pra algum lugar muito longe.
afastados da civilização tal qual um monge
querendo você aqui, no fundo do meu amâgo
Olhar pra trás e olhar em frente
respirar fundo, respirar forte.
Sentir saudade do que não faz mais sentido
Sentir o vento, tomar chuva nas ruas da cidade nova
Correr, subir e descer.
Chorar e sorrir também…
Lutar, perder e ganhar.
Mas, além disso aprender.
Antes de tudo viver.
Tudo novo, a rua, as casas e as pessoas
A vontade e os sonhos ainda são os mesmos
A solidão e a saudade também…
Nos últimos dias tive a oportunidade e o prazer de ler dois quadrinhos em forma de livros (ou seria o contrário?).
Então, uma pergunta me veio à mente:
- Quadrinho pode ser considerado literatura? Ou é arte? Mistura dos dois?
Pra quem gosta de quadrinhos, ou pra quem gosta mais ou menos (como eu), segue aí a dica.
Persépolis – Marjane Satrapi
‘Persépolis’ é a autobiografia em quadrinhos da iraniana Marjane Satrapi e, nesta edição, é publicada em volume único, que reúne as quatro partes da história. Marjane Satrapi tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico, numa sala de aula só de meninas. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita – apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa. Vinte e cinco anos depois, com os olhos da menina que foi e a consciência política à flor da pele da adulta em que se transformou, Marjane emocionou leitores de todo o mundo com essa autobiografia em quadrinhos, que só na França vendeu mais de 400 mil exemplares. Em ‘Persépolis’, o pop encontra o épico, o oriente toca o ocidente, o humor se infiltra no drama – e o Irã parece muito mais próximo do que poderíamos suspeitar.

Kiki de Montparnasse – escrita por José-Louis Bocquet e desenhada por Catel Muller
A obra ganhou vários prêmios na França e foi apontada como um dos títulos essenciais no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême de 2008. Trata-se de uma biografia em quadrinhos, que engloba desde o nascimento de Alice Prin (nome verdadeiro da protagonista) na vila francesa de Châtillon-sur-Seine, em 1901, até a sua morte.
Passando, é claro, pelo auge de Kiki de Montparnasse, que na Paris boêmia dos anos 1920, era uma das figuras mais carismáticas e adoradas. De modelo para pintores e fotógrafos a cantora e atriz, ela foi companheira do norte-americano Man Ray e musa de outros tantos como Kisling, Fujita, Per Krog, Calder, Léger, Utrillo, Picasso, Cocteau, Modigliani.
Kiki de Montparnasse mostra a ascensão e queda dessa estrela do começo do século 20 e é fruto de uma extensa pesquisa por parte dos autores. Não só da vida da personagem retratada, mas também do visual arquitetônico e dos trajes da época.

P.S – Pra quem não teve vontade de ler os textos, os dois quadrinhos retratam a vida de personagens que realmente existiram. Vale mesmo a pena!
queria saber o que sinto
ou, quem sabe, sentir mesmo alguma coisa…
dentro do vazio que me preenche me sinto leve,
mas não inteiro.
de quando em vez um gesto me faz pesar as consequências de ser e de ser assim.
e ser assim é penar pelas escolhas de antes pras coisas que são agora,
um pé entre a insegurança e a insatisfação de não estar inteiro em tudo que se faz.
um meio antigo, inimigo das paixões avassaladoras: o medo.
o medo do silêncio que precede a possibilidade de um não sonoro ou abafado,
os dedos em pedaços, juntos como se as raízes da possibilidade plantassem-se ali
e dali tirassem seu sustento, alimento imaginário das almas que suscetíveis a qualquer adversidade escondem-se nas sombras do que não são.
impelidos pelo vento que sopra em seus ouvidos refletindo o que se quer escutar, seguem sem saber pra onde ir.
em direção ao que se espera ter amanhã mas que, também, poderia ser hoje.
ser já.
que seja então.
não sei mais o que dizer.
provavelmente nada do que eu diga fará alguma diferença agora…
só queria,
todo dia,
seus quereres,
todos eles,
sobre mim,
bem devagar… e fim.